Renato Luiz de Oliveira Ferreira[1]
O pequeno outro e o grande Outro, o simbólico, o imaginário, o semelhante, a relação dual e a alteridade ― questões lacanianas presentes no filme Timidez, dirigido por Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa — carregam um teor psicanalítico denso. Baseada na peça O Cego e o Louco, de Cláudia Barral, a obra conta com um trabalho primoroso que dá corpo aos temas centrais da trama: a memória, o afeto, a solidão, a angústia, a cegueira metafórica e o desejo de superação barrado pela opressão em uma semiótica construída através da tensão tácita.
O projeto apresenta uma equipe robusta. No elenco, destacam-se Dan Ferreira, Antônio Marcelo, Evana Jeyssan, Jane Santa Cruz, João Pedro Costa, Zion Marley, Lilica Rocha e Ridson Reis. O roteiro é assinado por Susan Kalik, Cláudia Barral e Marcos Barbosa; a fotografia por Matheus da Rocha Pereira; a direção de arte por Carol Tanajura; e a montagem por Lucílio Jota e Quito Ribeiro, sob a trilha sonora de Jarbas Bittencourt e produção de Clélia Bessa, Rosane Svartman, Marcos Pieri e Thiago Gomes Rosa.
A fusão entre drama e suspense submerge o espectador em uma aura claustrofóbica dentro de uma cidade desigual: Salvador. Nela, a dor da opressão reverbera na falta de apoio e no olhar de descrédito que tenta barrar o talento negro de forma invisível, estrutural e naturalizada. O filme retrata como as desigualdades se perpetuam mesmo sem a necessidade de discursos de ódio explícitos, manifestando-se por meio de microagressões, silenciamentos e mecanismos institucionais que posicionam a população negra em desvantagem socioeconômica.
A relação de confinamento de Jonas (Dan Ferreira), que vive sob a sombra de seu irmão cego, Nestor (Antônio Marcelo), as lembranças de sua mãe, Tereza (Jane Santa Cruz), e a ausência paterna revelam cicatrizes invisíveis. O roteiro nos mostra que, embora o afeto seja uma saída possível, é necessário encarar o "monstro" de frente para que haja, de fato, superação e libertação. Essa fragilidade masculina e o peso de fantasmas internos dialogam diretamente com a desconstrução da masculinidade presente nos versos de Guerreiro Menino, de Gonzaguinha: “Um homem também chora / menina morena / também deseja colo / palavras amenas / precisa de carinho / precisa de ternura / precisa de um abraço / da própria candura...”
O protagonismo em Timidez é mais um passo crucial para a emancipação negra nas artes cênicas, migrando do estereótipo subalterno para uma centralidade que exala luta e competência. É impossível não recordar o legado de gigantes como Ruth de Souza, Grande Otelo, Léa Garcia, Antônio Pompeu, Zezé Motta, Milton Gonçalves, Mário Gusmão, Antônio Pitanga, Lázaro Ramos, entre outros. Da mesma forma, o Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado por Abdias Nascimento, segue como referência fundamental na valorização do artista e no combate ao racismo. Hoje, a dramaturgia brasileira, principalmente na Bahia, é ocupada por narrativas brilhantes focadas na ancestralidade, embora ainda enfrente a resistência de uma elite incomodada com a presença gigante do negro em espaços de poder.
Na psicanálise, a timidez de Jonas pode ser lida como um traço de caráter ligado ao medo da avaliação do outro e a uma proteção narcísica contra a exposição do desejo. Nestor atua como o Superego: a instância moral opressora e punitiva que monitora cada passo de Jonas, mergulhando-o em retraimento. Contudo, há um breve momento em que essa vigilância se distrai e emerge o afeto — um respiro subjetivo ao som de A gente precisa ver o luar, de Gilberto Gil, que evoca Guimarães Rosa em Tutaméia: “Felicidade se acha em horinhas de descuido...”.
O conceito bíblico do "Complexo de Jonas" — o medo do próprio sucesso e a fuga da autoatualização — é personificado com perfeição. O personagem bíblico não fugiu da introversão, mas precisou de um confronto espiritual para superar o medo de sua missão. Enquanto o Jonas bíblico foge de Nínive e é engolido por um peixe (metáfora do autoisolamento), o Jonas do filme, em Salvador (a Cidade da Salvação), tenta fugir de seus medos, mas é engolido pelo próprio apartamento sombrio. Esse ambiente gera um impacto profundo em sua saúde mental, resultando em apatia, até ele encontrar no desejo por Lúcia (Evana Jeyssan) a força para enfrentar os medos alimentados pelo irmão.
Um
dos grandes desafios de adaptações é não parecer "teatro filmado".
Nesse quesito, a obra triunfa, pois os movimentos de cena, a luz e a
sonoplastia de qualidade entregam um cinema vivo.