quinta-feira, 9 de junho de 2022

Um mero “engano”

São nove horas da manhã. Aristides está no escritório da CTC (Companhia do Trabalho Constante), com muitos afazeres: ligar para  fornecedores, enviar e receber mensagens via computador, verificar os pedidos dos clientes, o desempenho de sua equipe, dar informações aos superiores e ainda ter bom humor para superar o estresse. Apesar de árduo, o trabalho é a sua vida.

Em meio a tantas tarefas percebe a vibração do seu celular conectado ao computador, via cabo USB, para recarregar. A ligação é  desconhecida.

― Alô! ― atende de forma a não perder muito tempo.

― Oi, meu amor, meu gostoso, tesão da minha vida...

― Quem fala?

― Não está reconhecendo a minha voz? Precisa relaxar...

― Preciso saber quem é.

Ocorre um silêncio...

― Não é Alencar?!

Aristides começa a rir do outro lado da linha. Esquece por alguns instantes dos afazeres, finge ser outra pessoa e emposta a voz.

― Sou eu, meu amor, Alencar...

― Levei o maior susto!

― Apavorei?...

― Pensei ter ligado para o número errado. Gelei de medo.

― Está com saudade?

― Estou louca de saudade, uma semana parece uma eternidade. Vamos sair hoje, aproveite o horário do seu almoço. Estou louca pra beijar, fazer amor...

― Não tem medo?

― Medo de quê? O meu marido está trabalhando. Na verdade o cara só pensa nos clientes, na empresa... Esqueceu da mulher e dos filhos. Há tempo não me olha, nem me procura. Parei de reclamar. Estou carente, mas ainda bem tem quem me queira.

― Qual local nós vamos?

― No lugarzinho de sempre. Esqueceu? Gosto de lá porque não há risco de sermos reconhecidos. Sou prevenida. Quando falamos ao telefone modifico o tom da voz, falo de forma sensual, bem diferente de quando converso com o meu marido. Vai que um dia ligue pra ele pensando ser pra você. O nome dos dois começa com a letra a.

― Como é mesmo o nome do seu marido? Esqueci...

― O nome dele é Aristides. Trabalha na CTC. Aquele só merece o que o boi tem. A vida não é só trabalho. Todo homem casado tem de fazer manutenção, senão a mulher terceiriza.

Agora pare de fazer pergunta chata. Vou lhe esperar ao meio dia. Ouviu, Alencar?... Meu gostoso, amor da minha vida. Hoje vou fazer um escândalo naquela cama redonda e, pode me chamar daquele jeito, eu gosto. Tchau, preciso ir, estou ligando de um orelhão.

― Cleusa!

― Alencar, está me ouvindo? O que aconteceu?

― Ligou errado... Foi um mero engano.

― Não é Alencar?! Meu Deus...

A ligação cai... Aristides fica em silêncio por alguns instantes, de cabeça baixa. Pega o celular com as mãos trêmulas e, em vez de ligar para sua mulher, envia-lhe uma mensagem:

Amor, vou pedir férias hoje ao meu chefe para fazermos aquela tão sonhada viagem com as crianças. Já havia até esquecido, faz tempo não tiro férias.

Outra coisa, vamos jantar fora hoje? Depois poderemos ir a um cinema ou a um teatro... e em seguida, daremos uma boa relaxada numa banheira.

Um beijo do seu amado Aristides.

Renato Luiz de Oliveira Ferreira


quinta-feira, 19 de maio de 2022

O pequeno mensageiro

O povo dizia: “O bichinho fala sozinho...”

Ficava fincado numa grumixameira.

Sabia prosear com cada passarinho.

Um dia sumiu e atiçou muita faladeira.

 

Fartamente procurado na redondeza.

Pior, não acharam rastro, nem cheiro.

Era amigo dos bichos e tinha sageza.

Com o tempo foi visto no despenhadeiro.

 

Rezadeiras suplicavam a não perecer.

Os homens subiram ligeiro a cavalo,

Tinham de chegar antes do escurecer.

Logo viram o pequeno correr num estalo.

 

“Vem cá, moleque!” ― gritou o raivoso.

Assustado correu pra beira do abismo.

Falou outro: “Vai tomar surra, teimoso!”

O menino pulou e voou livre ao lirismo.

 

Ficaram de olhos arregalados de medo.

Das nuvens surgiu um sinal da deidade

E a lua cheia revelou o grande segredo:

Só há sentido viver se houver alteridade.

 

E o anjo fez a emoção jorrar das janelas.

 

                      Renato Luiz de Oliveira Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

   




 

     

 

 


quarta-feira, 23 de junho de 2021

DESENGANO

 

Tique-taque, tique-taque, tique-taque...

― A hora não passa...

― Ansiosa?

― Não. Apenas preocupada...

Trim, trim, trim, trim, trim...

― O telefone... não vai atender?

― Não tenho coragem...

― Eu atendo.

― Alô... Sim... Ah! Ah! Ah!

― O que houve? Ele está bem?

― Sim... Está vindo.

― Oh, Deus! Que felicidade!

― Vem voando... Criou asas...

― De avião?!

― Não. Com a Maria fumaça...

― Piuí... piuí... piuí... piuí... piuí... 

― Não acredito! Vou para a estação!

― Volte aqui! Cuidado! Meu Deus...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Como eu fui covarde...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Os sinos da igreja não param...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Deus, me perdoe... Não tive coragem.

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Não tive coragem de dizer a verdade...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Se não encontrou ele na estação...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Pelo menos estão juntos no céu.

Blem, blem, blem, blem, blem...


Renato Luiz de Oliveira Ferreira


terça-feira, 11 de maio de 2021

SAGRADO CANTO DA RECONSTRUÇÃO

Não importa se hoje há raios de sol ou se vai chover

Seja manhã, tarde, noite, ou qual bela estação a fruir

Quero um sentido pra vida além do ter e o vão prazer

Melhor ser, transcender, voar livre, reconstruir, devir


Pousar no alto da montanha, ver o novo, o anacoluto

Refletir as questões metafísicas e fugir do vento leste,

Praticar o mais belo verbo ― amar ― com o Absoluto

Sentir a suavidade da brisa oeste; minha alma veste

 

Pulsar o místico sopro do bem e soar a minha canção

Buscar o maitri, karuna, mudita, upeksha e praxidade

Confluir a alma e a tal felicidade, pureza na meditação

Encontrar com o outro, o Outro, através da alteridade

 

Sentir a deidade, o presente da vida, o Self, aqui e lá

Ter fé, entropatia, o dasein, e a intuição do beija-flor

Sublimar o desejo do sagrado canto à humanidade já

Para um mundo pleno de luz, igualdade, paz e amor

 

                                                Renato Luiz de Oliveira Ferreira