quinta-feira, 19 de maio de 2022

O pequeno mensageiro

O povo dizia: “O bichinho fala sozinho...”

Ficava fincado numa grumixameira.

Sabia prosear com cada passarinho.

Um dia sumiu e atiçou muita faladeira.

 

Fartamente procurado na redondeza.

Pior, não acharam rastro, nem cheiro.

Era amigo dos bichos e tinha sageza.

Com o tempo foi visto no despenhadeiro.

 

Rezadeiras suplicavam a não perecer.

Os homens subiram ligeiro a cavalo,

Tinham de chegar antes do escurecer.

Logo viram o pequeno correr num estalo.

 

“Vem cá, moleque!” ― gritou o raivoso.

Assustado correu pra beira do abismo.

Falou outro: “Vai tomar surra, teimoso!”

O menino pulou e voou livre ao lirismo.

 

Ficaram de olhos arregalados de medo.

Das nuvens surgiu um sinal da deidade

E a lua cheia revelou o grande segredo:

Só há sentido viver se houver alteridade.

 

E o anjo fez a emoção jorrar das janelas.

 

                      Renato Luiz de Oliveira Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

   




 

     

 

 


quarta-feira, 23 de junho de 2021

DESENGANO

 

Tique-taque, tique-taque, tique-taque...

― A hora não passa...

― Ansiosa?

― Não. Apenas preocupada...

Trim, trim, trim, trim, trim...

― O telefone... não vai atender?

― Não tenho coragem...

― Eu atendo.

― Alô... Sim... Ah! Ah! Ah!

― O que houve? Ele está bem?

― Sim... Está vindo.

― Oh, Deus! Que felicidade!

― Vem voando... Criou asas...

― De avião?!

― Não. Com a Maria fumaça...

― Piuí... piuí... piuí... piuí... piuí... 

― Não acredito! Vou para a estação!

― Volte aqui! Cuidado! Meu Deus...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Como eu fui covarde...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Os sinos da igreja não param...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Deus, me perdoe... Não tive coragem.

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Não tive coragem de dizer a verdade...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Se não encontrou ele na estação...

Blem, blem, blem, blem, blem...

― Pelo menos estão juntos no céu.

Blem, blem, blem, blem, blem...


Renato Luiz de Oliveira Ferreira


terça-feira, 11 de maio de 2021

SAGRADO CANTO DA RECONSTRUÇÃO

Não importa se hoje há raios de sol ou se vai chover

Seja manhã, tarde, noite, ou qual bela estação a fruir

Quero um sentido pra vida além do ter e o vão prazer

Melhor ser, transcender, voar livre, reconstruir, devir


Pousar no alto da montanha, ver o novo, o anacoluto

Refletir as questões metafísicas e fugir do vento leste,

Praticar o mais belo verbo ― amar ― com o Absoluto

Sentir a suavidade da brisa oeste; minha alma veste

 

Pulsar o místico sopro do bem e soar a minha canção

Buscar o maitri, karuna, mudita, upeksha e praxidade

Confluir a alma e a tal felicidade, pureza na meditação

Encontrar com o outro, o Outro, através da alteridade

 

Sentir a deidade, o presente da vida, o Self, aqui e lá

Ter fé, entropatia, o dasein, e a intuição do beija-flor

Sublimar o desejo do sagrado canto à humanidade já

Para um mundo pleno de luz, igualdade, paz e amor

 

                                                Renato Luiz de Oliveira Ferreira

 

 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

O MENINO QUE FALAVA COM PEDRAS

― Vovô virou pedra...

― Não... morreu.

― Conversei com ele hoje na beira do rio.

― Conversou nada, moleque.

― Disse que vai ficar ali. Voltou de onde veio.

― Virou pó, besta.

― Pedra, pó, terra... não tem diferença.

― Sabe de nada...

― A diferença é o tamanho.

― Tá querendo me ensinar, moleque?

― Não... o vovô quem me disse.

― Disse nada! Ele está no céu.

― Eu sei...

― Acabou de falar que está no rio.

― Sim. Ele disse que ali é o céu...


Renato Luiz de Oliveira Ferreira